27 de jul de 2012

Anthony Burgess - LARANJA MECÂNICA


Ora ora ora, o que temos aqui meus velhos drugues?
A ilustríssima obra de Anthony Burgess, após apreciar um bom e velho Moloko, o Blog Casa de Livro traz a você leitor, Laranja Mecânica.
Alex, nosso protagonista que também é o nosso narrador, nos conta de uma forma bizarra seu cotidiano. Juntamente com seus drugues, Tosko, Pete e George, praticam roubos, espancamentos e estupros, esparramando a boa e velha ultra-violência por toda uma Londres arrasada, em um caótico futuro indeterminado.
No futuro em que se passa a obra, os entorpecentes Velocet, Sintemesc e Dencrom, são misturado em Moloko e comercializada no Lactobar Korova, local em que religiosamente nosso drugues reúnem-se  para dar inicio a mais uma noite alucinada e repleta de Krovvy.
Agressões contra starres e sunkas, são comuns e acontecem em grande escala no livro, bem como toltchoks nas gúllivers.  E se você é daqueles leitores que literalmente entram na obra, no decorrer dos capítulos irá sentir as dores das vítimas. Porém, como em toda gangue, nada é tão “perfeito”, os companheiros de Alex resolvem fazer um complô, afim de tirar dele, todo o “poder” que a liderança oferece. 
Laranja Mecânica é sem duvida um dos melhores clássicos das distopias modernas.
Nota-se que, utilizei no texto acima algumas palavras que Burgess  recriou, construindo um vocabulário próprio para seus personagens, o NADSAT,  mesclando palavras em inglês, russo e gírias. Além de uma nova ambientação para Londres, em um cenário futurístico, definitivamente o escritor estava à frente de seu tempo.
Todo esse cenário para receber as ações inconsequentes dos jovens, percebemos uma indireta do autor, nada doce, para com a realidade. Em sua ficção, Burgess  abordou temas criticando determinados assuntos, que ainda hoje se aplicam a nossa sociedade.
O próprio autor em sua vida sofreu com a violência, sua mulher havia sido violentada sexualmente por jovens. Acredita-se que uma forma de superar o problema, foi escrever o livro.
O leitor poderá acompanhar na obra, o chocante momento em que um escritor está trabalhando em seu livro, cujo nome também é Laranja Mecânica, e é obrigado a assistir sua mulher ser violentada sexualmente, após ter sua casa invadida por Alex e seus drugues.
Às vezes uma desgraça só, não é suficiente. Na época que escreveu o livro, Burgess ainda era perturbado por uma doença que provavelmente iria matá-lo, em até no máximo 12 meses. Se a expectativa de vida dada pelo médico tivesse sido certeira,  ele teria partido sem terminar o livro.
A obra marcou muitos leitores assim como os que também tiveram contato com sua adaptação cinematográfica, que se tornaria um grande clássico do cinema mundial, dirigido pelo fenômeno Stanley Kubrick. Uma simples resenha descrevendo o conteúdo da obra é quase desnecessária, quando falamos em Laranja Mecânica precisamos ir mais afundo. E destacar alguns pontos de grande importância. Primeiro a natureza de agir inconsequentemente do ser humano, a irônica simpatia que nosso protagonista Alex despertou nos leitores, e a expressão “Laranja Mecânica” ter sido usada no livro, como também não podemos esquecer do seu bom gosto para música clássica, em especial Beethoven.
Uma das características  que tornam  Laranja Mecânica ainda mais interessante, é a falta da real consciência dos personagens, entre fazer o bem e o mau, entre o certo e o errado. Certamente Alex sabe que, diretamente causa danos à vida de terceiros durante as agressões, mas antes de utilizar a razão e a moral, facilmente é levado pelo instinto e vontade. Para Alex e seus drugues, a ultraviolência era em primeiro lugar, um prazer, uma diversão. Uma vida regada de facilidades, tudo sobre controle e poder deles, mas não era o suficiente.
“Eu não conseguia deixar de me sentir um pouquinho decepcionado com as coisas do jeito que eram naquela época. Nada contra lutar de verdade. Tudo era fácil como tirar doce de criança” Alex.
A expressão Laranja Mecânica, nada mais é do que a tentativa de impor ao homem, um ser evoluído e capaz de agir docilmente, que será acolhido calorosamente por  Deus no fim de tudo. Tudo isso na tentativa, e na base de leis impostas, dando condições que, são apropriadas para uma sociedade de criação mecânica.
Podemos ir um pouco além, Laranja e Mecânica são duas coisas distintas. A primeira nos traz algo natural, enquanto a segunda, carrega no contexto as mudanças humanas e a tecnologia, agregado à ausência de criatividade e favorecendo a realização de uma atividade automática e mecanizada.  
Nessa linha de pensamento podemos afirmar que, a mente de qualquer individuo é uma Laranja. Alex, no livro, é exatamente isso, na direção de que,  a maldade é algo natural ao seu modo de ver.  Apesar de ser fruto de bom berço, e pais educados,  essa forma de agir despertou em Alex, tornando-o um perigo para a sociedade.


Na obra iremos acompanhar o tratamento que fora aplicado, o Método Ludovico, tentando “mecanizá-lo”. E  o fim do nosso narrador, não é nada natural.  Que antecipadamente até o  próprio Alex questiona, em certo ponto do livro, ao conhecer o Método Ludovico, que seria aplicado em troca de redução de pena juntamente com algo que também lhe traria a “cura".
– “Eu vou ser uma Laranja Mecânica?”.

[ contém spoiler a partir desse ponto ]

Alex perde seus prazeres, senso de criação e paixões, que mesmo sendo um perigo, eram o que lhe tornava humano. Com sua mecanização, evadiu-se todo o seu senso de escolha, e isso criou uma certa comoção no leitor, talvez um dos motivos que nos levam a simpatizar com Alex, apesar de seus atos.
Alex sofre na mão das mesmas pessoas que no passado ele agrediu, gerando um ciclo para a narrativa. O final é nada mais que algo justo, porém muito cruel. Alex de sua adolescência à maturidade conhece as drogas, violência e punição, mas não só pelo governo, como também pelas eventualidades da vida.
Na versão britânica, não temos o vocabulário publicado no final no livro,  causando grande estranhamento em seus leitores, solicitando ao leitor certa dedução para compreensão, e  essa era a intenção do autor, trazer todo o cotidiano do mundo de Alex, da forma como ele realmente acontecia, e também é a forma mais indicada para primeira leitura, não consultar o vocabulário.  Uma excelente obra com muita violência e conflitos éticos. Definitivamente é uma obra marcante, Laranja Mecânica é muito “horrorshow”, depois da sua leitura, você jamais será o mesmo. 
Padre (para Ludovico):
"Escolha. Ele não tem escolha, certo? O interesse próprio, o medo da dor física levaram-no a este grotesco ato de humilhação. (...) Ele deixa de ser um malfeitor, mas deixa também de ser uma criatura capaz de escolhas morais!"


Título: Laranja Mecânica
Título original: A Clockwork Orange
Autor: Anthony Burgess
Ano de lançamento: 1962
Páginas: 224

Boa Leitura

Casa de Livro Blog

Sidney Matias


 "A juventude precisa acabar, ah sim.

Mas a juventude é apenas quando nos comportamos tipo assim como os animais. Não, não é bem tipo assim ser um animal, mas ser um daqueles brinquedos malenks que você videia sendo vendido nas ruas, como pequenos tcheloveks feitos de lata e com uma mola dentro e uma chave de corda do lado de fora e você dá corda nele e grrr grrr grrr e ele vai itiando, tipo assim andando, Ó, meus irmãos. Mas ele itia numa linha reta e bate direto em coisas bang bang e não pode evitar o que está fazendo.
Ser jovem é como ser uma dessas máquinas malenks."
Alex.
É curioso como as cores do mundo real parecem muito mais reais quando vistas no cinema. (Alex)

Foi como se por momentos, meus irmãos, um pássaro imenso adejasse na leitaria e senti todos os meus cabelos porem-se em pé pelo corpo todo, e um formigueiro como se pequenas lagartixas o percorressem de alto a baixo. Porque eu conhecia aquele cântico; era um pedaço da gloriosa Nona do Ludwig Van. (Alex)

A virtude vem de nós mesmos. É uma escolha que só a nós pertence. Quando um homem perde a capacidade de escolher, deixa de ser homem. (padre)
- Não! Não! Parem por favor! Suplico-lhes! É um pecado! É um pecado!
- Pecado? O que é um pecado?!
- Servirem-se assim de Ludwig Van. Ele não fez mal a ninguém! Beethoven só escreveu música.
- Referes-te ao fundo musical?
- Sim.
- Já tinhas ouvido esta música antes?
- Sim!
- Gostas, então, de música?
- Sim!!! (...) não é justo! Não é justo sentir-me mal a ouvir o maravilhoso Ludwig Van.
(Alex/ médicos)



Algumas palavras do vocabulário:
itiar: ir, andar, acontecer
malenk: pequeno, pouco
tchelovek: sujeito
krovvy: sangue
starres: homem velho
sunkas: mulher
horrorshow: legal
moloko: leite
toltchoks: chutes, porradas
gúlliver: cabeça
sintemesc / dencrom = droga alucinógena

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