16 de set de 2012

Eça de Queiroz - A CIDADE E AS SERRAS

                                            
Mais um clássico da literatura, que irá também ajudar no vestibular para todos os interessados. Publicado em 1901, ano seguinte à morte de Eça de Queiroz, o romance A Cidade e as Serras foi desenvolvido a partir da ideia central contida no conto, civilização, datado de 1892. É um belo romance, onde Eça de Queiroz ironiza ferrenhamente os males da civilização, fazendo elogios dos valores da natureza.
Uma das obras mais significativas do autor, onde ele relata a travessia de Jacinto Tormes, um ferrenho adepto do progresso e da civilização da cidade para as serras.
Jacinto troca o mundo civilizado, repleto de comodidades que caracterizam a vida urbana moderna.
A Cidade e as Serras transcorrem no século XIX, quando Paris, a cidade-luz, era vista como capital europeia e Portugal como uma nação subdesenvolvida e em pleno declínio. Jacinto é a personificação dos ideais cultivados neste período, pois ele glorifica a vida urbana e civilizada, e despreza totalmente a existência rural.
O narrador personagem, José Fernandes, o qual não se confunde com o  protagonista da obra Jacinto Tormes, é colocado como menos importante do que o protagonista, como é exemplificado no início da obra.
José Fernandes então vai para Guiães, residência dos tios, localizada nas serras. Por conta desta decisão, ele e Jacinto permanecem distanciados durante sete anos. Ao voltar para Paris, hospeda-se na casa de Jacinto, mas contrariando a tese do amigo, que crê que a felicidade esta vinculada à presença da civilização.
Mergulhado no tédio, Jacinto segue cansado cada evento de sua vida, desde a destruição da família, a edificação de outro recanto para os mortos, até as festas incessantes empreendidas em honra do Grão Duque. Um dia ele resolve partir para Tormes, situada nas serras, em companhia de José Fernandes e de Grilo, para testemunhar o ritual de inauguração do novo monumento funerário.
Para que ele não se despojasse de suas modernidades, a casa que o abrigaria foi provida de todos os objetos civilizatórios. Quando os amigos chegam a seu destino, descobrem que nada foi preparado e nem mesmo sua vinda fora prevista. Para piorar, sua bagagem havia se extraviado. Sem outra saída, eles se acomodam como podem em sua pousada.
José Fernandes volta para Guiães, e envia ao amigo os trajes que lhe permitiriam voltar para a cidade, mas não obtém retorno de Jacinto. Preocupado, retorna para sua casa nas Serras e encontra o companheiro ocupado em modificar sua residência, livre do tédio. Totalmente modificado, ele se fixa definitivamente na nova morada, com conforto, mas sem os símbolos da civilização moderna.
Jacinto se dedica a melhorar a vida de seus serviçais, a providenciar o necessário para que o povo desta localidade viva com um maior bem-estar, ou seja, uma biblioteca, farmácia e creche, convertendo-se no ídolo da população. Logo ele conhece Joana, prima do amigo, e com ela se casa. Sua única passada por Paris só reafirma sua decisão de permanecer nas Serras. 

Podemos considerar A Cidade e as Serras um romance no qual se destaca a categoria espaço, na medida em que os ambientes são fundamentais para a compreensão da história, destacando assim os contrastes por meio dos quais se contrapõem. Assim a amplidão da quinta de Tormes contrasta com a estreiteza do universo tecnológico, o que aponta para a oposição entre o espaço civilizado e o espaço natural, presente em todo o romance.


Titulo: A Cidade e as Serras
Autor: Eça de Queiroz
Ano: 1901
Páginas: 233
Editora: Martin Claret

Boa Leitura

Casa de Livro Blog 

Karina Belo


Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo moço em quem reaparecera a força dos velhos Jacintos rurais. Só pelo nariz, afilado, como narinas quase transparentes, duma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao
modo das eras rudes, crespo e quase lanígero; e o bigode, como o dum Celta, caía em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu fato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma pérola prendia as luvas de anta branca, o verniz
das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma flor, não natural, mas composta destramente pela sua ramalheira com pétala de flores dessemelhantes, cravo, azálea, orquídea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma leve folhagem de funcho.
Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
Et fontes sacros, frigus captabis opacum...
Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que são teus e águas que te são sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!

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