18 de set de 2012

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas

             
Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma clássico escrito por Machado de Assis, onde conta a história de Brás Cubas a partir de sua morte, já que inicialmente o próprio narrador observa que para tornar a narrativa mais interessante e bonita, havia decidido começá-la pelo fim. Ele era, portanto não um autor defunto, mas sim um defunto autor. Machado de Assis teve uma sacada interessante ao escrever tal obra, pois é totalmente diferente de tudo já publicado.
Assim o primeiro capítulo começa justamente com a morte de Brás Cubas e seu enterro. A causa da morte teria sido uma pneumonia, da qual ele não cuidou de forma correta, mas o fato na verdade deve-se a uma ideia grandiosa e útil, segundo ele mesmo, uma ideia que transformou em fixação. Uma certa manhã, caminhando pela chácara onde vivia, pensou em inventar um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar melancolia humana. Para justificar a criação, frente as autoridades, Brás chamou a atenção de que a cura que traria seria algo verdadeiramente cristão, além de não negar as vantagens financeiras que o tal produto traria. Contudo, já do outro lado do mundo, confessa que o real motivo era ver seu nome escrito nas caixinhas do medicamento e em todas as fontes publicitarias, pois as embalagens levariam seu nome.
Simplesmente, doido.
 
Brás Cubas nasceu no dia 20 de outubro de 1805. Foi uma grande festa para toda a família. Muitas visitas, e o pai estava orgulhoso pelo filho ser homem. Brás recebeu muitos mimos durante a infância. Desde os cinco anos recebera o apelido de “menino diabo”. Ele mesmo reconhece que de fato, foi um dos mais malvados e travessos de seu tempo. Uma de suas travessuras foi ter quebrado a cabeça de uma escrava porque ela lhe negara uma colher de doce de coco, quando o menino tinha seis anos. Prudêncio, um moleque escravo da família, era seu cavalo de todos os dias. Brás conta ainda travessuras que fazia, mas que parecia não ter importância para seu pai, que o admira e se lhe repreendia na presença dos outros, em particular lhe dava beijos. Com nove anos, o garoto assistiu em sua casa um jantar organizado pelo pai em comemoração à derrota de Napoleão. No final do jantar, Brás queria uma compota de doces, mas todos estavam distraídos escutando um dos letrados presentes, o Doutor Vilaça. O menino começou a pedir o doce, depois gritou, berrou e foi tirado da sala por sua tia Emerenciana.
Isso bastou para que sentisse uma enorme necessidade de vingança contra o doutor Vilaça. Ficou vigiando-o até surpreendê-lo numa noite beijando dona Eusébia, irmã de um sargento-mor. Para que todos soubessem, saiu pela chácara gritando o que havia visto.
Brás Cubas cresceu normalmente frequentando a enfadonha escola, e lá conheceu seu melhor amigo Quincas Borba. Ambos os garotos eram muito travessos.
Após este período de sua vida, Brás revela ao leitor seu caso com Marcela, uma bela prostituta espanhola. Completamente envolvido por tal moça, seu pai o enviou para estudar na Europa, com medo do envolvimento profundo do filho com uma prostituta.
Brás viaja para Portugal, onde estuda. O mesmo confessa ter sido um estudante medíocre, mas nem por isso deixou de conseguir seu diploma. Mas agora de volta ao Rio de Janeiro, Brás chega a tempo de ver sua mãe viva, mas já muito mal, a beira da morte por causa de um câncer no estômago.
Pela primeira vez, depara-se com uma perda real, e confessa que até então só se preocupava com coisas fúteis. Estava inconformado com a morte de sua mãe, por isso após a missa de sétimo dia foi passar um tempo em uma casa na Tijuca. Levou apenas alguns livros, uma espingarda, roupas, charutos e claro, Prudêncio. E tem uma surpresa quando o escravo conta ao patrão que se mudou ao lado uma antiga amiga da família, Dona Eusébia. Brás não quer encontrá-la, pois se lembra de suas travessuras no passado. E no mesmo dia seu pai informa que quer o filho de volta à vida social e diz também que irá escolher uma moça para ele se casar, Brás reluta, mas o pai não se deixa vencer.
Mas a essa altura Brás Cubas já esta apaixonado, Virgília o nome dela, e a mesma é filha do conselheiro Dutra.
Mas ai surge na história Lobo Neves, que não somente lhe rouba a namorada, mas também cai nas boas graças do Conselheiro Dutra. O pai de Brás fica profundamente desapontado e magoado, vindo a falecer após alguns meses.
Virgília se casa com Lobo Neves, e pouco tempo depois seu marido é eleito. Mas na verdade ela casou-se por interesse, e realmente ama Brás Cubas.
Os dois tornam-se amantes, e encontram-se regularmente. Lobo Neves adora a esposa e nela confia inteiramente. Aliás, não tinha muito tempo para observar seus passos, já que estava entregue totalmente à política.
Brás narra o encontro que teve com Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua. E percebe que o maltrapilho lhe roubara o relógio.
Brás Cubas recebe a notícia de que Virgília terá que se mudar, pois seu marido foi transferido. Ele fica louco, pede para que sua amada não o abandone, mas por alguma sorte, Lobo Neves acaba convidando-o para ir junto, nomeando-o assim como secretário.
Os boatos de que os dois são amantes ficam mais fortes, por isso agora que estão realmente juntos é necessário mais discrição. Mas o tempo vai passando e todo o encanto que Brás tinha é quebrado, e assim acaba o romance entre Brás Cubas e Virgília.
Quincas Borba reaparece, trazendo de volta o relógio que roubara de Brás, e amizade deles fica mais forte, Quincas vira um frequentador da casa de Brás.
Em suas conversas Quincas mostra vários projetos para Brás e este escuta com atenção para poder usar em beneficio próprio.
Brás Cubas deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba, por causa de uma moléstia que apanhara quando tratava de um invento seu denominado emplastro Brás Cubas. E o livro conclui: “Ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”.



Titulo: Memórias Póstumas de Brás Cubas
Autor: Machado de Assis
Ano: 1881
Páginas: 287
Editora: Martin Claret 

Boa Leitura 

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Karina Belo

Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso.
 “Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros pêsames’. Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem...”.
O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, e não atinava com a solução do enigma.
Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-lo e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a vê-la, damos três ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delírio. A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós éramos substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa diferença?
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem asem demência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegara este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

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