A história do livro / The story of the book

O que é o livro? Para fins estatísticos, na década de 60, a UNESCO considerou o livro “uma publicação impressa, não periódica, que consta de no mínimo 48 páginas, sem contar as capas”. O livro é um produto industrial. Mas também é mais do que um simples produto. O primeiro conceito que deveríamos reter é o de que o livro como objeto é o veículo, o suporte de uma informação. O livro é uma das mais revolucionárias invenções do homem. A Enciclopédia Abril (1972), publicada pelo editor e empresário Victor Civita, no verbete “livro” traz concisas e importantes informações sobre a história do livro. A seguir, transcrevemos alguns tópicos desse estudo didático sobre o livro:

O livro na Antiguidade

Antes mesmo que o homem pensasse em utilizar determinados materiais para escrever (como, por exemplo, fibras vegetais e tecidos), as bibliotecas da Antiguidade estavam repletas de textos gravados em tabuinhas de barro cozido. Eram os primeiros “livros”, depois progressivamente modificados até chegar a ser feitos — em grandes tiragens — em papel impresso mecanicamente, proporcionando facilidade de leitura e transporte. Com eles, tornou-se possível, em todas as épocas, transmitir fatos, acontecimentos históricos, descobertas, tratados, códigos ou apenas entretenimento.
Como sua fabricação, a função do livro sofreu enormes modificações dentro das mais diversas sociedades, a ponto de constituir uma mercadoria especial, com técnica, intenção e utilização determinadas. No moderno movimento editorial das chamadas sociedades de consumo, o livro pode ser considerado uma mercadoria cultural, com maior ou menor significado no contexto socioeconômico em que é publicado. Como mercadoria, pode ser comprado, vendido ou trocado. Isso não ocorre, porém, com sua função intrínseca, insubstituível: pode-se dizer que o livro é essencialmente um instrumento cultural de difusão de ideias, transmissão de conceitos,  documentação (inclusive fotográfica e iconográfica), entretenimento ou ainda de condensação e acumulação do conhecimento. A palavra escrita venceu o tempo, e o livro conquistou o espaço. Teoricamente, toda a humanidade pode ser atingida por textos que difundem ideias que vão de Sócrates e Horácio a Sartre e McLuhan, de Adolf Hitler a Karl Marx.

Espelho da sociedade

A história do livro confunde-se, em muitos aspectos, com a história da humanidade. Sempre que escolhem frases e temas, e transmitem ideias e conceitos, os escritores estão elegendo o que consideram significativo no momento histórico e cultural que vivem. E assim, fornecem dados para a análise de sua sociedade. O conteúdo de um livro — aceito, discutido ou refutado socialmente — integra a estrutura intelectual dos grupos sociais.
Nos primeiros tempos, o escritor geralmente vivia em contato direto com seu público, que era formado por uns poucos letrados, já cientes das opiniões, ideias, imaginação e teses do autor, pela própria convivência que tinha com ele. Muitas vezes, mesmo antes de ser redigido o texto, as ideias nele contidas já haviam sido intensamente discutidas pelo escritor e parte de seus leitores. Nessa

época, como em várias outras, não se pensava no enorme percentual de analfabetos. Até o século
XV, o livro servia exclusivamente a uma pequena minoria de sábios e estudiosos que constituíam os círculos intelectuais (confinados aos mosteiros no início da Idade Média) e que tinham acesso às bibliotecas, cheias de manuscritos ricamente ilustrados. Com o reflorescimento comercial europeu em fins do século XIV, burgueses e comerciantes passaram a integrar o mercado livreiro da época. A erudição laicizou-se, e o número de escritores aumentou, surgindo também as primeiras obras escritas em línguas que não o latim e o grego (reservadas aos textos clássicos e aos assuntos considerados dignos de atenção).
Nos séculos XVI e XVII, surgiram diversas literaturas nacionais, demonstrando, além do florescimento intelectual da época, que a população letrada dos países europeus estava mais capacitada a adquirir obras escritas.

Cultura e comércio

Com o desenvolvimento do sistema de impressão de Gutenberg, a Europa conseguiu dinamizar a fabricação de livros, imprimindo, em cinquenta anos, cerca de vinte milhões de exemplares para uma população de quase cem milhões de habitantes, a maioria analfabeta. Para a época, isso significou enorme revolução, demonstrando que a imprensa só se tornou uma realidade diante da necessidade social de ler mais.
Impressos em papel, feitos em cadernos costurados e posteriormente encapados, os livros tornaram-se empreendimento cultural e comercial: os editores passaram logo a se preocupar com melhor apresentação e redução de preços. Tudo isso levou à comercialização do livro. E os livreiros baseavam-se no gosto do público para imprimir, sobretudo, obras religiosas, novelas, coleções de anedotas, manuais técnicos e receitas.
O percentual de leitores não cresceu na mesma proporção que a expansão demográfica
mundial. Somente com as modificações socioculturais e econômicas do século XIX — quando o livro começou a ser utilizado também como meio de divulgação dessas modificações, e o conhecimento passou a significar uma conquista para o homem, que, segundo se acreditava, poderia ascender socialmente se lesse — houve um relativo aumento no número de leitores, sobretudo na França e na Inglaterra, onde alguns editores passaram a produzir, a preços baixos, obras completas de autores famosos. O livro era então interpretado como símbolo de liberdade, conseguida por conquistas culturais. Entretanto, na maioria dos países, não houve nenhuma grande modificação nos índices percentuais até o fim da Primeira Guerra Mundial (1914/18), quando surgiram as primeiras grandes tiragens de livros, principalmente romances, novelas e textos didáticos. O número elevado de cópias, além de baratear o preço da unidade, difundiu ainda mais a literatura. Mesmo assim, a maior parte da população de muitos países continuou distanciada, em parte porque o livro, em si, tinha sido durante muitos séculos considerado objeto raro, passível de ser adquirido somente por um pequeno número de eruditos. A grande massa da população mostrou maior receptividade aos
jornais, periódicos e folhetins, mais dinâmicos e atualizados, além de acessíveis ao poder aquisitivo da grande maioria. Mas isso não chegou a ameaçar o livro como símbolo cultural de difusão de ideias, como fariam, mais tarde, o rádio, o cinema e a televisão. O advento das técnicas eletrônicas, o aperfeiçoamento dos métodos fotográficos e a pesquisa de materiais praticamente impere -cíveis fazem alguns teóricos da comunicação de massa pensar em um futuro sem os livros tradicionais, com seu formato quadrado ou retangular, composto de folhas de papel, unidas umas às outras por um dos lados. Seu conteúdo e suas mensagens, racionais ou emocionais, seriam transmitidos por outros meios, como, por exemplo, microfilmes e fitas gravadas.
A televisão transformaria o mundo inteiro em uma grande “aldeia” (como afirmou Marshall McLuhan), no momento em que todas as sociedades decretassem sua prioridade em relação aos textos escritos. Mas a palavra escrita dificilmente deixaria de ser considerada uma das mais importantes heranças culturais, para todos os povos. E no decurso de toda a sua evolução, o livro sempre pôde ser visto como objeto cultural
(manuseável, com forma entendida e interpretada em função de valores plásticos) e símbolo cultural (dotado de conteúdo, entendido e interpretado em função de valores semânticos). As duas maneiras podem fundir-se no pensamento coletivo, como um conjunto orgânico (em que texto e arte se completam, como, por exemplo, em um livro de arte) ou apenas como um conjunto textual (no qual a mensagem escrita vem em primeiro lugar — em um livro de matemática, por exemplo).
A mensagem (racional, prática ou emocional) de um livro é sempre intelectual e pode ser revivida a cada momento. O conteúdo, estático em si, dinamiza-se em função da assimilação das palavras pelo leitor, que pode discuti-las, reafirmá-las, negá-las ou transformá-las. Por isso, o livro pode ser considerado um instrumento cultural capaz de liberar informação, sons, imagens, sentimentos e ideias através do tempo e do espaço.
A quantidade e a qualidade das ideias colocadas em um texto podem ser aceitas por uma sociedade, ou por ela negadas, quando entram em choque com conceitos ou normas culturalmente admitidas. Nas sociedades modernas, em que a classe média tende a considerar o livro como sinal de status e cultura (erudição), os compradores utilizam-no como símbolo mesmo, desvirtuando suas funções ao transformá-lo em livro-objeto.
Mas o livro é, antes de tudo, funcional — seu conteúdo é que lhe confere valor (como os livros das ciências, de filosofia, religião, artes, história e geografia, que representam cerca de 75%  dos títulos publicados anualmente em todo o mundo).

O mundo lê mais

No século XX, o consumo e a produção de livros aumentaram progressivamente. Lançado logo após a Segunda Guerra Mundial (1939/45), quando uma das características principais da edição de um livro eram as capas entreteladas ou cartonadas, o livro de bolso constituiu um grande êxito comercial. As obras — sobretudo best-sellers publicados algum tempo antes em edições de
luxo — passaram a ser impressas em rotativas, como as revistas, e distribuídas às bancas de jornal. Como as tiragens elevadas permitiam preços muito baixos, essas edições de bolso popularizaram-se e ganharam importância em todo o mundo.
Até 1950, existiam somente livros de bolso destinados a pessoas de baixo poder aquisitivo; a partir de 1955, desenvolveu-se a categoria do livro de bolso “de luxo”. As características principais destes últimos eram a abundância de coleções — em 1964 havia mais de duzentas nos Estados Unidos — e a variedade de títulos, endereçados a um público intelectualmente mais refinado. A essa diversificação das categorias adiciona-se a dos pontos-de-venda, que passaram a abranger, além das bancas de jornal, farmácias, lojas, livrarias, etc. Assim, nos Estados Unidos, o número de títulos publicados em edições de bolso chegou a 35 mil em 1969, representando quase 35% do total dos títulos editados.

Planetário Biblioteca Alexandria atual


Boa Leitura

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What is the book? 

For statistical purposes, in the 1960s, UNESCO considered the book “a non-periodical printed publication, consisting of at least 48 pages, excluding the covers”. The book is an industrial product. But it is also more than a simple product. The first concept that we should retain is that the book as an object is the vehicle, the support of information. The book is one of man's most revolutionary inventions. Enciclopédia Abril (1972), published by the publisher and entrepreneur Victor Civita, in the entry “livro” brings concise and important information about the history of the book. Below, we transcribe some topics from this didactic study of the book:

The book in antiquity

Even before man thought of using certain materials to write (such as vegetable fibers and fabrics), the libraries of antiquity were full of texts engraved on clay tablets. They were the first “books”, later progressively modified until they were made – in large runs – on mechanically printed paper, providing ease of reading and transport. With them, it became possible, at all times, to transmit facts, historical events, discoveries, treaties, codes or just entertainment.
Like its manufacture, the function of the book has undergone enormous changes within the most diverse societies, to the point of constituting a special commodity, with a specific technique, intention and use. In the modern editorial movement of the so-called consumer societies, the book can be considered a cultural commodity, with greater or lesser significance in the socioeconomic context in which it is published. As a commodity, it can be bought, sold or exchanged. This does not happen, however, with its intrinsic, irreplaceable function: it can be said that the book is essentially a cultural instrument for the diffusion of ideas, transmission of concepts, documentation (including photographic and iconographic), entertainment or even for condensation and accumulation of knowledge. The written word has conquered time, and the book has conquered space. Theoretically, all of humanity can be reached by texts that spread ideas ranging from Socrates and Horace to Sartre and McLuhan, from Adolf Hitler to Karl Marx.
Society mirror

The history of the book is intertwined, in many ways, with the history of humanity. Whenever they choose phrases and themes, and convey ideas and concepts, writers are choosing what they consider significant in the historical and cultural moment they live. And so, they provide data for the analysis of their society. The content of a book—socially accepted, discussed, or refuted—integrates the intellectual structure of social groups. In the early days, the writer usually lived in direct contact with his audience, which was formed by a few literate people, already aware of the author's opinions, ideas, imagination and theses, due to the very coexistence he had with him. Often, even before the text was written, the ideas contained therein had already been intensely discussed by the writer and part of his readers. In this At that time, as in many others, the huge percentage of illiterates was not thought of. until the century XV, the book exclusively served a small minority of sages and scholars who constituted the intellectual circles (confined to monasteries in the early Middle Ages) and who had access to libraries, full of richly illustrated manuscripts. With the European commercial revival at the end of the 14th century, bourgeois and merchants became part of the book market at the time. Scholarship became secular, and the number of writers increased, and the first works written in languages ​​other than Latin and Greek (reserved for classical texts and subjects considered worthy of attention) also appeared.
In the 16th and 17th centuries, several national literatures appeared, demonstrating, in addition to the intellectual flourishing of the time, that the literate population of European countries was better able to acquire written works.

Culture and commerce

With the development of Gutenberg's printing system, Europe managed to boost the production of books, printing, in fifty years, about twenty million copies for a population of almost one hundred million inhabitants, most of whom were illiterate. For the time, this meant a huge revolution, demonstrating that the press only became a reality in the face of the social need to read more.
Printed on paper, made in sewn notebooks and later covered, the books became a cultural and commercial enterprise: publishers soon began to worry about better presentation and lower prices. All this led to the commercialization of the book. And booksellers relied on the public's taste to print, above all, religious works, novels, collections of anecdotes, technical manuals and recipes.
The percentage of readers did not grow at the same rate as the demographic expansion world. Only with the sociocultural and economic changes of the 19th century — when the book also began to be used as a means of disseminating these changes, and knowledge came to mean an achievement for man, who, it was believed, could ascend socially if he read — there was a relative increase in the number of readers, especially in France and England, where some publishers began to produce, at low prices, complete works by famous authors. The book was then interpreted as a symbol of freedom, achieved through cultural conquests. However, in most countries, there was no major change in percentage rates until the end of the First World War (1914/18), when the first large print runs of books appeared, mainly novels, novels and didactic texts. The high number of copies, in addition to lowering the price of the unit, spread the literature even more. Even so, most of the population of many countries remained distant, in part because the book itself had for many centuries been considered a rare object, obtainable only by a small number of scholars. The great mass of the population showed greater receptivity to the newspapers, periodicals and serials, more dynamic and updated, in addition to being accessible to the purchasing power of the vast majority. But this did not threaten the book as a cultural symbol for the diffusion of ideas, as radio, cinema and television would later do. The advent of electronic techniques, the improvement of photographic methods and the research of practically imperishable materials make some theorists of mass communication think of a future without traditional books, with their square or rectangular format, composed of sheets of paper, joined together each other on one side. Its content and messages, rational or emotional, would be transmitted by other means, such as microfilms and recorded tapes.
Television would transform the entire world into a great “village” (as Marshall McLuhan put it), at the moment when all societies decreed their priority in relation to written texts. But the written word would hardly fail to be considered one of the most important cultural heritages for all peoples. And throughout its evolution, the book could always be seen as a cultural object.
(handy, with a form understood and interpreted according to plastic values) and cultural symbol (endowed with content, understood and interpreted according to semantic values). The two ways can merge in collective thinking, as an organic set (in which text and art complement each other, as, for example, in an art book) or just as a textual set (in which the written message comes first. place — in a math book, for example).
The message (rational, practical or emotional) of a book is always intellectual and can be relived at every moment. them, deny them or transform them. Therefore, the book can be considered a cultural instrument capable of releasing information, sounds, images, feelings and ideas through time and space.
The quantity and quality of ideas placed in a text can be accepted by a society, or denied by it, when they clash with culturally accepted concepts or norms. In modern societies, where the middle class tends to consider the book as a sign of status and culture (erudition), buyers use it as a symbol, distorting its functions by transforming it into an object-book.
But the book is, above all, functional—its content is what gives it value (as are books on science, philosophy, religion, arts, history, and geography, which account for about 75% of the titles published annually worldwide. ).

The world reads more

In the 20th century, the consumption and production of books progressively increased. Launched shortly after the Second World War (1939/45), when one of the main features of publishing a book was the interwoven or cardboard covers, the paperback was a great commercial success. The works—especially bestsellers published some time earlier in luxury — began to be printed on presses, like magazines, and distributed to newsstands. As the large print runs allowed for very low prices, these pocket editions became popular and gained importance throughout the world.
Until 1950, there were only paperbacks intended for low-income people; from 1955, the “luxury” paperback category was developed. The main characteristics of the latter were the abundance of collections - in 1964 there were more than two hundred in the United States - and the variety of titles, addressed to an intellectually more refined audience. Added to this diversification of categories is that of points of sale, which now include, in addition to newsstands, pharmacies, stores, bookstores, etc. Thus, in the United States, the number of titles published in paperback editions reached 35,000 in 1969, representing almost 35% of the total number of titles edited.

Good reading

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