25 de set de 2015

SAL – Leticia Wierzchowski


Uma das histórias mais simples, pura e emocionante que já li.
Leticia Wierzchowski é uma brasileira que em forma de palavra nos toca fundo o coração.
SAL consegue nos despertar sentimentos distintos por cada personagem apresentado.
Uma família.
Um farol.
Uma ilha.
Muitos amores.
Várias histórias.
Um pouco dos ingredientes que compõem essa história.
Ivan de Godoy era um homem simples, calado e observador. Vivia em La Duiva com seus pais, Don Evandro e Doña Alba.
O garoto cresceu e se tornou um bom rapaz. Trabalhador, Ivan ajudava o pai a cuidar de cada pedacinho daquele chão.


Mas quando apaixonou-se por Cecília, garota que ajudava sua mãe com os afazeres da casa, seu tormento deu início.
A velha Alba era ciumenta como o Diabo.
Queria matar Cecília por ter seduzido seu filho, o seu menino Ivan.
Se dependesse dela, aqueles dois nunca seriam felizes.
Mas esse amor foi forte.
Lutou com toda a sua pureza e força, e mesmo com todas as tragédias que enfrentaram pelo caminho, permaneceram juntos. Até o fim.
Ivan e Cecília passaram a tomar conta daquele paraíso sozinhos, em determinado momento.
Aquele farol que guardou, guardava e ainda guardaria tantas histórias, tantos amores, tantos segredos. Que orientava os marinheiros, que iluminava a vida de Ivan, que abençoou e amaldiçoou a sua família.
Era ali o seu lugar. Onde tirava o seu sustento. Foi naquela areia que amou sua Cecília pela primeira vez , e a amaria pelo resto de suas vidas.
Naquela Ilha, em La Duiva, que criariam seus seis filhos.
Será que maldições tem poder?
Depois do nascimento dos filhos, Doña alba criou vida novamente, os aterrorizando.


No meio de toda aquela areia, sol e sal, Flora nos apresentou essa história. A história da família Godoy.
Os filhos de Ivan e Cecília. Lucas, Julieta, Orfeu, Flora, Eva e Thiberius. A Alegria e ruína de uma família.
Lucas era o mais velho. Se parecia com o pai em tudo. Ela lindo, fisicamente, calado e amava trabalhar naquele farol.
Julieta era um anjo com dias contados na Terra. Por conta de uma grave doença não sai da cama, e sofria com pesadelos contínuos, onde sua avó era a grande vilã.
Ah Julieta, doce Ju, sempre iluminando o coração de todos com o seu olhar cheio de amor.
Orfeu era um Deus grego. Lindo, sedutor, poeta. Sabia do seu poder de sedução e o usava sem nenhum pudor. Mas escondia seus segredos e medos. Era o mais amigo de Julieta, o que mais sofreu e o que mais amaldiçoou o seu sangue.
Flora era tímida. Passou dias escrevendo seu livro, sua história. Retratando La Duiva e tudo o que existia em seu coração.
Amava todos que faziam parte da sua vida, sua família, mas sentia-se deslocada e perdida. Encontrava-se e sentia-se completa apenas mergulhada nas páginas de um bom livro.


Eva era gêmea de Flora. Tão idênticas e tão diferentes em tudo, ao mesmo tempo. Enquanto Flora lia e escrevia, Eva saia para se divertir com os marinheiros fortes que vinham a procura de seu pai. Ahh... Com se divertiu!
Thiberius era o caçula. O mais centrado e ligado a sua mãe Cecília. Adorava estudar o céu, as estrelas.
Tinha sonhos perturbadores. Mas foi o garoto mais doce que La Duiva conheceu.
A vida da família Godoy era boa.
Muito trabalho durante o dia. Enfrentando o sol, o vento.
Mas as noites era maravilhosas. Todos juntos, sorrindo e conversando. Porém quando finalmente Flora finalizou seu livro, apareceu quem iria desestabilizar aquela rotina.
Flora confidenciou ao pai que gostaria de uma opinião profissional sobre o livro. Ivan amava aquela garota e tratou de ajudá-la no que foi preciso.
Julius Templeman, um professor de literatura que morava na Inglaterra, recebeu a obra e após a leitura , apaixonou-se instantaneamente.


A cada segundo dos seus dias, La Duiva lhe chamava. A doce autora lhe despertava. Aquela família lhe devorava.
E quando Julius chegou naquela casa, procurando por Flora de Godoy, derrubou de uma só vez três pilares da vida de Cecília e Ivan.
Seus filhos. Definhando aos seus olhos.
Sua história escorrendo pelas mãos.
Amor.
Ódio.
Traição.
Lágrimas.
Morte.
Algumas das coisas que Julius levou para aquela casa.
Enquanto Flora sonhava com um amor verdadeiro. Orfeu descobria seus verdadeiros desejos, sua verdadeira face.
O que Julius fez com aquela família?
Quais foram os segredos revelados?
Quais as fugas realizadas?
Leticia Wierzchowski escreveu páginas de lágrimas, alegrias, tragédias e rancores de forma esplendorosa.
Casa de Livro Recomenda!
Os anos passaram velozes como os lampejos do farol. E então a vida entrou aqui por todas as portas e janelas, uma tormenta de amores, talentos, agonias, ambições e disputas. A vida fez realmente uma jogada impressionante: com um único peão, Julius, derrubou três das minhas peças – ou talvez quatro, porque depois Tiberius saiu atrás de Orfeu e do professor inglês, e mais uma das minhas crianças se perdeu neste mundo.


Titulo: SAL
Autora: Leticia Wierzchowski
Páginas: 240
Ano: 2013
Editora: Intrínseca.

Boa Leitura. 
Casa de Livro.
Karina Belo.


E foi nesses serões vespertinos que Cecília encontrou no seu menino um pouco de si mesma. Lucas ria como ela, e, como ela, apreciava ficar no promontório olhando o horizonte e procurando figuras imaginárias nas nuvens. Ele também tinha um jeito de olhar tão parecido com o da mãe de Cecília, sua avó, que era como se olhasse apenas uma parte do todo, concentrando-se nisso silenciosamente. Lucas não olhava para ela; olhava os seus cabelos, a sua boca, as suas mãos. Vasculhava-a aos poucos. E Cecília se enternecia, tomava-o nos braços, enchendo-o de beijos.
Para com isso, mamãe”, ele dizia. “Eu sou um menino. Um menino grande.” Tinha três anos, mas falava como um adulto. Lucas, o seu pequeno menino grande. Quando pensava nele, ainda hoje, pensava naquelas tardes azuis. Havia alguma coisa azul em Lucas, uma coisa fresca e fugidia. Um pardal, dissera Ivan. Um pardal livre e limpo e ordeiro, que por vezes vinha pousar no seu ombro.


Levantei o rosto do caderno e fitei o meu irmão. Era um rapaz bonito e esguio, talvez um pouco magro demais. Tinha um rosto anguloso e aqueles olhos escuros e ardentes que pareciam quase imorais. Como se ele sempre estivesse pensando em coisas perigosas, impudicas e secretas. Aqueles olhos vivos às vezes se escondiam sob os seus cabelos escuros cacheados, que sempre estavam fora do lugar. Bem, eu tinha um personagem assim, romântico e arguto ao mesmo tempo. Os mesmos cabelos bastos e crespos, lábios iguais aos dele. Como um daqueles jovens romanos que caíam nas graças do imperador e depois tinham suas faces cunhadas em moedas, seus rostos eternizados no mármore.
Uma espécie de Antínoo.


Eu deixei de lado as agulhas e me ergui. Vinda da janela aberta, a claridade ofuscante da rua machucou os meus olhos. Mas lá estava ele. Com aquela camisa, o blazer pesado demais. Seu rosto era pálido, avermelhado de calor. E não parecia perigoso, não parecia mesmo. Mas creio que com as guerras acontece do mesmo jeito: você nunca ouve o primeiro disparo, até que um belo dia o exército inimigo marcha vitorioso sobre a cidade que você ama.


A partir de hoje, retiro os pontos da agulha um a um, e esvazio o meu coração das antigas dores. Como as árvores do quintal deixam que a primavera cumpra os seus milagres, também eu estou brotando novamente... Me aproximei do fim, isso é verdade, mas aceito e brindo ao refluxo da vida, essa maré incessante, e encho os meus pulmões de ar para vir à tona ainda uma vez. Não vou mais cobrir os trezentos e sessenta e cinco degraus com o meu tapete; guardarei esta interminável linha de fios e de cores unidas, quilômetros, milhares de quilômetros de fios e de histórias que poderiam dar a volta ao mundo, mas que nunca saíram desta ilha, guardarei-a como um novelo imenso e precioso do meu passado eterno.
Hoje, eu, Cecília de Godoy, sou como Teseu, que entrou no labirinto e matou o Minotauro.

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